-Senhores passageiros da Viação Catarinense, com destino a São Caetano, São Vicente, Santos e São Bernardo do Campo, última chamada para embarque - Anunciou uma voz abafada no auto falante.
Ai, d'us, que que eu faço? Meu ônibus saindo e eu nem retirei a passagem!
-Moço, posso passar na tua frente? Meu ônibus está saindo pra Santos... - Perguntou a menina loira do meu lado.
O homem careca concordou, mas com cara de desgosto. Tanta gente havia passado na sua frente, já estava cansada. Tive pena de incomodar mais uma vez aquele careca de bom coração. Esperei mais alguns minutos mas o desespero bateu.
-Moça, posso passar na tua frente? É que.. É que meu ônibus está saindo já? Mas, é... Desculpa e...
-Tudo bem, tudo bem, tenho tempo ainda!
Disse meu nome para atendende, que imprimiu minha passagem enquanto eu batia a ponta do pé no chão e comia minha cuticula.
Corri para a plataforma A4, entreguei minha passagem ao motorista, e entrei ofegante no ônibus.
"Poltrona 4", lembrei... E qual não é minha surpresa quando vejo que na poltrona 4 está sentada uma senhora de cabelos brancos, um tanto rechonchuda com um sorriso estático no rosto.
-Poltrona 3? - Ela pergunta
-Éééé... Na verdade a minha é a 4. A senhora...
-Non, non.. Meu lugar é o da chanela, mas to esperrrando pra fala co motorista pra abrí a curchina, purque eu precissso ver o caminho e...
-Tudo bem, tudo bem. - Respondi e fiquei plantada com minha mochila enorme no começo do corredor. Em 3 segundo começou a contorção, primeiro para deixar entrar um passageiro e depois para deixar a senhora sair para falar com o motorista. Depois de muito malabarismo, finalmente sentei na minha poltona 4, me contorci mais um pouco para deixar a senhora entrar de novo e respirei aliviada.
-O motorista disse que non pode abrrri a curchina.
-Por que? - questionei
-Purque atrapaia a visibilidade.
-Ah, mas então a senhora pode pedir pra trocar com o moço da poltrona 1, que daquele lado a cortina está aberta.
-Mas então pedimo pros dois trocar com nois, aí sentamos daquele lado.
-Mas é...
-É aí, troca vucê com aquele moço e eu com esse - Ela falava como se fosse minha velha conhecida, quiças minha avó - E sentamo chunta!
-Ééééé... - fiquei sem reação, e me virei para os dois rapazes das poltronas 1 e 2 - Com licença, algum de vocês se incomoda de trocar de lugar com essa senhora? É que ela precisa sentar...
-Non, non, troca os dois de lugar com nois dua.
-Ahn...
-Éééé..
Os dois rapazes foram monissilábicos, mas acho que não tiveram coragem de contraria uma senhora tão decidida. Trocamos de lugar, mais um malabarismo e sentamos na frente da cortina aberta. Me acomodei, peguei meu mp4 e coloquei "Alice no País das Maravilhas" para assistir. Já estava quase dançando ao som da trilha sonora quando reparo os olhos curiosos da senhora.
-Isso aí é televison?
-Ah, é como se fosse, você coloca o filme aqui dentro e assiste.
-Ahhhhh...
Voltei para meu belo filme quando noto que ela está falando comigo. Tiro o fone.
-Vai passa globo rrreporti?
-Não, não... Não é televisão assim, só serve pra vê filme.
-Ahhhh... Eu non vecho filme!
-Por que?
-Pur caussa dos nerrrvo!
-Ah... - O que significaria isso?
-Hochi messmo, fui fiacha, deixei u marido sussinho, tife que adchianta trabaio e os nervo ficarrro um horrror.
-Huummm...
Voltei ao filme. Quando o filme acabou, a senhora era a única pessoa acordada. E ela queria papo.
-Vucê sabi quanta hora é até Sun Bernarrrdo du Campo?
-Não sei não... Pra Santos são 6..
-Eu cha fiachei pra Sun Bernarrrdo, mas fas uns treinta anos. Esssa estrada non era nem asfaltada.
-Hummm...
E assim se seguiu por varias horas.
-Purque lá na minha cidade tem um ponto de onibus na porta di casa!
-Onde é que a senhora mora?
-Colonia de Witmarsum - Então eaquele sotaque era alemão!
-É mesmo?
-Vuce cunhece?
-Não, só de nome.
-Purque lá....
Ela falava, falava, falava...
-Vuce sabe que eu cha viachei sussinha antes, pra alumanha, pra vissita minha filha...
-É mesmo?
-Viachei sussinha, mas foi tuto bem, tuto bem. Viache sussinha!
Ela era uma daquelas pessoas que não precisam de resposta, feedback ou retorno. Basta para elas serem ouvidas.
-Purque meu marrrido fico sussinho, ele é duentchi, fico preocopada, né?
-Aham...
-E uma veiz nois passamo um acidenchi, né?
-É?
-Essa pessoa que non sabe dirrrichi e fais coissa errrada...
-Sim, sim...
Ela falava, e eu respondia monossilabos e ela estava satisfeita. Era, verdadeiramente, um ser encantador. Mas depois de seis horar eu não aguentava mais ser encantada, só queria mesmo dormir. Dormi meia hora.
-Moça, moça, acorda, chego im Santos!
Olhei pro lado e era a rodoviária de Itanhaem. Expliquei pra ela e dormi de novo. Isso se repetiu em outras 3 rodoviárias, até que desisti de dormi e voltei a conversar com ela. Ela precisava de atenção.
Por fim cheguei, me despedi da minha velha conhecida, lhe desejei boa viagem. Me senti aliviada, meu espirito meio-curitibano não pode suportar tanta conversa, preciso do meu espaço.
Agora se passaram algumas semanas. Estou aqui com meu espaço. Tudo demarcado, tudo privativo. E fico pensando, por onde será que anda minha amiga? Será que quer conversar? Quiças posso visitá-la em Witmarsum.
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