Mostrando postagens com marcador educação. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador educação. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 2 de maio de 2018

por que eu senti tesao vendo "eu nao sou um homem facil"

sim, gente, vamos conversar sobre tesao. escrevo isso e ja fico ouvindo vozes dizendo: mas que horror, que vulgaridade. ficar falando de putaria assim publicamente. mas nao eh bem isso. quando eu falo de tesao, estou falando de ver -no meu caso- um homem e desejar ele com muita intensidade. e isso passa pelo corpo, claro.

-convenhamos, tudo passa. mesmo que tentemos nos convencer que somos cerebros racionais que independem do receptaculo que os carrega-

mas falo de uma experiencia que transcende o corpo. como na vez que mais senti tesao por um homem. ele me falava da sua experiencia lendo mulheres que correm com lobos e entendendo melhor seu proprio lado feminino. e eu pensando: eu poderia agarrar essa pessoa agora. ta bom que eh um experiencia bem minha - eu desejava ele porque ele dialogava com alguns dos meus desejos mais profundos. podiam ser outros, a depender do menu de desejos profundos de cada um. em todo caso, passei a entender tesao como algo meio antropofagico. um desejo de engolir a pessoa para absorver o que tem de mais bonito.

pois bem, entao fui assistir esse filme. "eu nao sao um homem facil" eh uma especie de utopia femista. nao feminista, femista. o personagem principal eh um homem desses, que voce manda enquadrar para pintar um retrato da masculinidade. um dia ele bate a cabeca e desperta em um mundo onde as mulheres exercem o exato papel que os homens tem hoje. assediam, diminuem, chamam os homens de loucos - especialmente aqueles que se atrevem a fazer afirmacoes de poder.

ai voce ja pensa: vix, virou radical. ta toda femista. feminazi. acha bonito oprimir oz home tudo. mas peor que nao, migues. a utopia femista nao mexeu com meu coracao, apesar de ser muito engracadinha. nao da pra nao rir da inversao. dificil nao rir quando aquilo que te faz chorar aparece ao reves em um mundo imaginario. mas isso nao me da tesao, nao dialoga com meus desejos. nao sinto tesao em opressao.

porem, entretanto, contudo, todavia... existe um romancezinho entre o protagonista e uma mulher que representa  no mundo femista o que ele representava no nosso. a comedora. e nesse encontro de comedores de dimensoes paralelas, rola um processo do tipo cebola: um descascamento de camadas de ego, poder, opressao. e, buenas, sem mais spoilers, isso gera uma qualidade de encontro bonita.  e pronto, era so isso. pra quem clicou no link porque leu a palavra tesao, desculpa. nao queria falar de putaria, apenas de desejos.

sábado, 7 de outubro de 2017

pra alimentar o imaginário dazmiga que curte seriado

entendedores entenderão, mas tem horas que eu me sinto a Hanna em Iowa. pros não entendedores de seriados americanos de menininha, vamos lá. nossa amiga Hanna (personagem-alter-ego da Lena Dunham em girls) certo dia da quarta temporada decide voltar a estudar. ela se enfia  em Iowa, que é um lugar no meio dos isteites que tem uma porrada de campo de milho. ela chega toda linda e faceira, mas vai se dando conta que é tá totalmente fora do seu elemento. 

minha cena favorita, como não podia deixar de ser, é quando ela vai numa festa em uma frat house, nosso equivalente de uma festa de alunicos de graduação. talvez algo como uma festa de arquitetura no DCE, só que menos criativa. ela tá tão deslocada e precisada de um descarrego que termina dançando sozinha bem loca no meio da sala. um descarrego digno, nada que eu não apoiaria ou faria. mas, pros que tão se perguntando, não cheguei nesse ponto ainda. mas como ela, não tenho muita vida social, as vezes me sinto alienígena no meio dos coleguinhas e frequentemente dou com a cara na parede. essa última frase pode ser lida no sentido figurativo ou real, vide o galo que fiz esses dias. 

mas eu também tenho meu momentos Rory (a menina fofinha do Gilmore Girls). e não é só porque aqui também tem uma estação de cereais no refeitório (a propósito, bem impressionante, um corredor com 23 variedades de sucrilhos). mas eu constantemente me pego pensando que estou no lugar mais maravilhoso do mundo. mesmo. me impressiono pelo menos uma vez por semana com alguma discussão que acompanho. me pego pensando gente-comé-que-não-vim-presse-lugar-antes ou olha-esse-povo-diverso-discutindo-diversidade-que-lindo ou ainda que-show-as-pessoas-fazem-perguntas-pra-saber-a-resposta-e-não-pra-mostrar-erudição. eu fico deslumbrada que nem a Rory em Yale, quando se dá conta que foi parar num mundo mágico do aprendizado. 

e assim, sabe... com certa frequência o aprendizado também vem acompanhado de comida. é, comida-de-graça - essa semana eu tive sete refeições gratuitas em palestras/eventos. ontem inclusive eu comi aperitivos de camarão no bafo com bacon tomando vinho tinto no meio doz dotor tudo. no mesmo evento em que eu ouvi sobre atendimento de saúde para crianças trans e sobre como o uso das estatísticas falseia a visão social sobre a população negra. tipo, Rutgers sua linda, para de ser perfeita.  

fora isso, teve o dia que eu fui atendida por uma canadense maravilhosa que me ajudou a analisar opções de bolsas para aplicar e tentar ficar nessa universidade linda. ou quando um rapaz latino me resolveu 5 problemas de software diferentes só porque eu fui até o setor dele com meu computadorzinho embaixo do braço e pedi ajuda. e também teve o dia que o gerente da academia da universidade me mostrou as instalações e me explicou sobre as aulas de zumba, pilates, yoga e a porra toda que eu posso fazer. ou ainda o auge de todos os momentos-Rory: o dia que eu fui até a biblioteca e descobri dois corredores inteiros de literatura em português. e o funcionário simpático me disse que eu podia emprestar quantos livros quisesse e ficar com eles até o fim do semestre. 

pois sim, meu coração explode toda vez que eu descubro o que posso fazer de graça aqui dentro. quer dizer, de graça não. pagando uma quantia, absurda para qualquer brasileiro, e se tornando aluna desse instituição. sim, nada é de graça nesse país - mas isso é conversa para outro dia. 

(eu com fone de ouvido respondendo: você troca o R.U. por 1,90 por um refeitório com todas as comidas possíveis por 11 doleta? você troca a biblioteca da reitoria de graça...)

por ora, o que posso dizer é: tive meus momentos alienígenas que-que-eu-to-fazendo-aqui-socorro. mas, por enquanto, os momentos garotinha deslumbrada na (univer)cidade grande tão ganhando de longe. 









sábado, 18 de julho de 2015

profissão 'criancista'

o texto é antigo, tem pelo menos um ano de engavetamento. hoje nem mesmo sou professora. posso me dizer, ainda, criancista? mas decidi compartilhar, primeiro, porque é do meu ser e, segundo, porque me comoveu lembrar daquela pequenina que me mostrou o quanto isso era profundo. 

  Lembro-me bem do dia em que descobri que trabalhar não era (só) uma mazela. Depois de uma experiência mais do que suficiente em um escritório, havia concluido  que o trabalho, quando não te faz mal, não te faz nada. Mas um dia, entrando para dar aula uma das primeiras vezes depois de uma semana dos infernos, fui parada por uma pequena. Uma pequena que hoje já é bem maior que eu. (Isso é papo de professora velha e baixinha. No meu caso, mais baixinha do que velha.) Mas, enfim, o fato é que naquele momento a pequena me parou, olhou nos meus olhos e perguntou: Você está bem, Marina? Com muito esforço menti que "sim, estou be...", mas antes que terminasse a frase fui surpreendida por um abraço. Os dois bracinhos me envolveram com a doçura de quem diz eu-sei-que-você-não-está-bem-mas-eu-estou-aqui, a cabeça cheia de cachinhos encostou no meu colo e fui preenchida pela mais singela forma de energia que ela me doava sem medo. 
  Uma forma de energia que se tornou quase familiar com o passar dos anos. Foi virando um combustível que preenche meu coraçãozinho de professora quase que semanalmente. Também não vou mentir, dizendo que é diariamente. O professor que disser que nunca sai da sala esbravejando vai estar mentindo: lidar com gente (pequena, então) sempre causa dores de cabeça, coração e garganta. Mas o fato é que as dores, sim, existem, mas existem as delícias. Os desenhos, as genialidades, as sacadas. Os bilhetinhos, as declarações de afeto, os sorrisos. Os abraços, as beijocas e até pequeninas que te agasalham porque você está gripada. Mais que suficiente pra fazer chorar de alegria uma professora manteiga derretida como eu.
  A verdade é que essas bonitezas todas, ao longo dos anos, fizeram de mim uma chata apaixonada, que fala das "suas" crianças sempre que tem oportunidade. Tem que fale de seus filhos, tem quem fale de seus bichos de estimação, tem até quem fale de ações das bolsa- ainda que não me relacione muito com este último tipo, sei que existem. Bom, eu falo dos meus alunos e os que não se interessam por crianças vão ter que me desculpar ou se retirar. O tempo e os ventos da escola, feliz ou infelizmente, me transformaram em uma criancista em constante formação, como muitos viram economistas, cientistas ou balconistas.
  Mas ser uma criancista, como ser professora, tem suas lindezas e suas dores. As dores cotidianas e as dores de um amor maior. As cotidianas resolvemos com fonoaudiologia, acupuntura, gengibre e muita respiração profunda. Já as que vem de um amor maior são de resolução mais complexa. Aliás, ouso dizer que são insolúveis. Devo me conformar que vou carregar esse aperto no peito pro resto da vida. Isso quando o aperto no peito não vira choro convulsivo.
  O problema é que ser criancista nos faz saber melhor quem são os pequenos, saber sentar no chão e subir em árvore, saber estar no seu nível, "ficar na ponta dos pés, estender as mãos, para não machucá-las". Uma criança reconhece logo um criancista: é aquele que lhe olha nos olhos e tenta entendê-la sem subestimá-la. Mas isso de entender os pequenos, mais que um dom ou aprendizado, é um fardo. Porque entendendo-as você entende a beleza de ser criança. E isso te impossibilita de entender e aceitar qualquer situação que afaste a pequenez e grandeza daquele serzinho desta mesma beleza.
  Criancistas maduros, diante disso, não se conformariam e se colocariam a projetar caminhos de resolver estes problemas. O que seria digno e possível fazer. Mas quando ainda se é criancista em formação (sempre?) não se está completamente apto a lidar, a virar essas situações. Pode ser que ver aquela criança sofrendo tenha apenas o efeitos de te derrubar ao chão e te matar um pouco por dentro (perdoado o exagero da manteiga derretida e chorosa que sou). Pode ser que, com uma pitada a mais de pragmatismo, você já seja capaz de entender que não se pode abraçar o mundo com braços humanos. Mas fica sempre uma angústia, uma sensação de parem-o-mundo-que-eu-quero-descer, ou, na melhor das hipóteses, a compreensão de que tudo começa agora, que é sempre tempo e nunca chega-se ao fim da linha. Que o presente é brutal, que o passado o explica e que o futuro é uma luta cotidiana. Uma luta que está, sempre, apenas começando.