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sábado, 30 de setembro de 2017

da doença por falta de casa

como boa falante de português orgulhosa, sou muito apegada à palavra saudade. mesmo depois que descobri que em hebraico também existe uma palavra para isso, inclusive com plural e singular, continuei vendendo o discurso da palavra que é só nossa. mas, mesmo os soldados mais ferrenhos da língua portuguesa devem se render às vezes, diante da boniteza de outra língua. 

a palavra que vem ganhando meu coração é homesick

esses dias uma pessoa me apresentou a um brasileiro dizendo: queria que você conhecesse ela, porque no ela esta homesick. eu disse que nããão, eu não estava homesick e curiosamente minha voz atingiu um tom um tanto agudo. na minha cabeça a definição era muito pesada praquilo que eu sentia em relação ao Brasil. 

primeiro, porque existe uma questão cognitiva. a gente entende algo novo por comparações com aquilo que já conhece. eu vivo significando minhas impressões, visões e ideias com frases que começam com "no Brasil...". e parece que você de fato entende e aceita algo quando consegue estabelecer raciocínios baseados apenas na realidade que está vivendo. mas isso não é saudade.

depois, ficava o peso da palavra doente embutida quando me diziam homesick. não me pergunte por onde, mas me vinha a imagem de soldados em um trincheira lendo as cartas de alguém amado. passado um tempo, porém, me dei conta que a palavra não tinha essa carga. mais que isso, percebi que descrevia com precisão um sentimento central na substância de ser estrangeira. 

é que sick, além de doente, pode ser enjoado, mareado. aquela sensaçãozinha de fundo que não é das dez mais agradáveis mas não te impede de viver. as vezes te empurra mais pra viver, vai saber. morre aquele misto-de-tédio-e-preguiça que as vezes estar em casa nos dá. nascem deslumbramentos, surpresas, curiosidades, desafios. nasce um desejo de ficar nesse lugar que te transborda de novo.

mas fica faltando um calorzinho no coração. um que não está lá, vai saber, quando você se senta no ferry boat e olha pro mar. você está voltando de um dia de viagem lindo. você botou os pés no mar e até sentiu que aquele seu ponto-pacífico-que-fica-no-atlântico veio junto com você na mala. afinal, é o mesmo mar. mas aí você senta no ferry boat e pensa: me falta aquele colinho. 

um colo que não é de uma pessoa só. mas de uma série de amores que ficaram pra trás. aqueles amores despretensiosos que brotam numa amizade de longa data e olhar profundo. coisas que você não sabe como serão nesse lugar novo, mas que sabe que não serão como antes.

e não é tristeza, ainda que possa virar. é mais um gostinho bom de amore e saudade. é uma condição que, você entende, vai te acompanhar. sempre. vai te lembrar que ter asas é fundamental, mas você nunca vai deixar de ter raízes. 





sábado, 23 de setembro de 2017

o parque das terras altas

pois eis que vim parar em um lugar que se chama Highland Park.

passei quase duas semana jurando que era um bairro de New Brunswick, a cidade onde estudo. mas depois de várias gafes entendi que não: esse lugarejo com 50 km de asfalto tem até prefeito. e mais, cidadão orgulhosos e uma associação de bairro ativa. além dos esquilos e enviadinhos, a pseudo-cidade também tem uma vasta coleção de velhinhas, crianças e casais sorridentes.

a minha parte favorita de morar aqui é que cruzo o rio todos os dias para ir pra aula. o Raritan, meu novo velho amigo, que me cumprimenta todas as manhas. e eu cumprimento ele de volta, sim. aliás, estou com a mania insuportável de dizer oi para todos os esquilos que vejo. só parei de cumprimentar as famílias de veadinhos porque, aparentemente, elas se retiraram de férias em direção ao sul. 

tá, eu tô ficando meio louca, talvez. ou tô assumindo mais minha loucura porque não tem muita gente pra ver. mas também tem contato humano aqui, juro! por exemplo, na minha primeira semana comprei uma abóbora direto da produtora - aliás, está começando época de abóbora por aqui e aparentemente, existem 887 variedades do bicho. na semana seguinte, conheci o Pino's, um barzinho que aceita cachorros e onde as pessoas levam seu próprio rango. 

mas a melhor parte desse tal parque das terras altas é, sem dúvida, sair a noite. a cidade tem iluminação pública só nas ruas principais. nas ruas menores, algumas casas iluminam o caminho. no parque existe uma luz que fica perto das docas e acende quando você passa. e eu saio as onze da noite pra ir ao mercado. vou correr no parque em breu absoluto. e cada vez que faço isso, meu coraçãozinho de mulher brasileira fica tenso e depois suspira aliviado. é uma leveza inenarrável.

e aí, já que estou nessa de vender meu peixe, preciso dizer: a impressão é que Highland Park tem tudo isso de cidade pequena, mas uma cabecinha de cidade grande. aqui tem muitos filhos da universidade, que - outro dia conto - parece bem progressista. você anda pelas ruas e vê placas dizendo em três línguas "não importa de onde você vem, estamos feliz em ser seus vizinhos". vi uma bandeira confederada, é verdade. mas também vi uma bandeira de arco iris numa casa cheia de artes e dizeres lindo. os dizeres bonitos até o momento estão ganhando de longe até das bandeiras americanas (!).

enfim, você já deve ter percebido que estou apaixonada. mas é que gosto do que vejo, do que cheiro e do que ouço morando nesse lugar. ir dormir com os grilos e acordar com os passarinhos nunca foi meu grande sonho, sou mocinha da cidade. mas é bem agradável, vou te falar.

pois bem, agora só falta você me visitar. 

sábado, 29 de agosto de 2015

SUA POESIA É SUA por Marcelino Freire

"Só existe um livro no mundo. Dizem. Os outros livros vêm sempre em segundo. São cópias desse primeiro livro. Tudo está, na verdade, sendo eternamente reescrito. Ave nossa! Certo. Eu entendo. Mas penso. A poesia, por exemplo, de Augusto dos Anjos é dele. Unicamente. Sim. Mesmo filho e herdeiro de leituras parnasianas, simbolistas. Somente ele, ora, lançou o olhar para uma dicção específica. Digo: focou ele seu espírito em uma língua paralítica. Maldita. Inaugurou, no Brasil, um repertório original. Raivosamente lírico. Meu Cristo! Como não dizer, a saber, que aquilo que escreveu Guimarães Rosa foi ele mesmo quem escreveu? E para valer? Foi a fala dele que se abasteceu do verbo do povo, do gesto do jagunço, do léxico dos Sertões. Claro que o autor mineiro bebeu na fonte de Euclides da Cunha. E na de gente mais antiga nesse mundo. Há testemunhas. Mas Rosa é dono do que fez. Ora, sem dúvida. Mergulhou profundo em várias culturas que ele, só ele, pôde traduzir. E fazer uso sem limite, enfim. E mais não digo. Mas pergunto. Meu amigo e minha amiga: e sua poesia como anda? Diz-me, ao pé do ouvido. Sua poesia é sua, de verdade? Você está consciente dos voos que dá na página? Do espaço que ocupa com cada palavra? Dos verbos que escolhe? Tem lido bastante, meu jovem, minha jovem? Quais poetas costuma visitar? Já roubou quem hoje? Se roubou, o que pôs, então, no lugar? Reexplico: tudo é seu quando você sabe o que está fazendo. Quando há intensidade na sua entrega. Quando você carrega, feito formiga, um pouco de cada coisa por aí espalhada. De cada obra que leva para casa, você bem sabe o nome. É capaz de reconhecer o sinal. De que maneira, visceral, a poesia do outro tocou no seu peito. Não tem jeito. Somos feitos do que foi feito. E agradecemos, quando escrevemos, a quem nos ajudou nessa busca. Infinita. Por uma voz só nossa. Um jeito só nosso. E de mais ninguém. De estar na vida. De sentir quando a alma de nossa arte segue. Além." (Marcelino Freire)

domingo, 3 de maio de 2015

a plenitude do amor

"fundamental é mesmo o amor..."
T.J. 

lembro bem do poeta, dizendo tantas vezes ao meu ouvido: é impossível ser feliz sozinho. talvez ele nem tenha dito isso tantas vezes, mas o fato é que foi gravado por alguém e repetido feito doutrina na minha cabeça de ser sentimental em formação. e várias vezes lembrei dele e me perguntei: será que é isso mesmo? 

já achei que sim, no meio de alguns dos intensos e saborosos amores que vivi. já achei que sim, no fundo dos poços que vieram depois deles. já achei que não queria nem pensar nisso, quando amar me fez infeliz e prisioneira. já achei que não, quando estar sozinha me foi mergulhar na vida outra vez. 

de qualquer forma: a verdade mesmo é que sou um ser de amor. não porque ame toda a humanidade. nem porque ache que o amor resolve os problemas do mundo. mas, por mais pragmática que tente ser e até seja, é assim que existo e sempre existi: sentindo muito amor, deixando ele transbordar esse copo cheio de emoções que sou euzinha. 

e sabe o quê? nos últimos dias me aconteceu uma coisa assim, sui generis. uma coisa de voltar pra casa me sentindo feliz, com aquela sensação de brotamento espontâneo de sorriso. aquela sensação de plenitude que só o amor traz. plenitude não porque seja eterno ou absoluto, mas porque te torna pleno naquele mesmo instante. o famoso infinito-enquanto-dure do poeta. "sui generis?", você pergunta. mas é que sabe o que é? não era paixonite. 

nos últimos dias, foi inédito, mas voltei para casa mais de uma vez sorrindo de amor por pessoas no plural. pessoas que não me atraem fisicamente, mas que acho as mais lindas que há. pessoas com quem quero apenas estar. e somar. e multiplicar. pessoas que me fazem sentir feliz de ser quem eu sou e estar onde estou. nos últimos dias passei ilesa até por uma tpm. sem derramar uma lagriminha. 

e tá... talvez seja por encontrar segurança no meio de toda a incerteza desse navio-na-tormenta que anda minha vida. ou por encontrar gente que é forte e sabe ser dura - mas não perde a ternura - no meio desse mundo de injustiça e violência que anda mais perto que nunca. ou simplesmente porque gentileza e doçura não se encontram em qualquer canto e a gente fica até surpreso quando se depara. 

ou pode ser isso tudo junto. 

não sei. o que sei é que é bonito, faz bem, engrandece. que soma, divide, multiplica e faz o que é bom crescer em progressão geométrica. que às vezes transborda. o que eu sei é que isso também é amor. 

e que de fato, é impossível ser feliz sozinho (pra mim, ao menos). 
mas, tudo bem, eu não estou sozinha. 

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

contos efêmeros I - com um balão só, já dá pra voar?

 Clicou em finalizar compra com a relutância de quem é vivo, mas com a certeza de quem já analisou suas opções incontáveis vezes. Ia fazer esta viagem. Estava decidida. Soube, em verdade, desde o momento em que ouviu a notícia, que tomaria esta atitude. Ainda que tenha perguntado o que mesmo aquele homem havia dito e por alguns segundos não tivesse acreditado. Ainda que não soubesse exatamente o que iria fazer, sabia. Teve a certeza incerta de que faria essa viagem. Teve a certeza que seria a senhora desta jornada.
Senhora de si. Sempre havia sido a senhora de si mesma, por que agora seria diferente? Nunca havia deixado nem ele, aquele que tanto amou, interferir em suas decisões. Estava sempre disposta a estar na companhia dele e de todos aqueles que carregava no coração, mas sempre alcançou o que queria por conta própria. Egoísta? Não. Vivia com a responsabilidade de quem faz porque acredita. Em si, nos outros. Acreditava, acima de tudo, que o mundo tinha tantas possibilidades e que jamais abriria mão de abocanhá-las por estar presa a alguém, a algo, a algum lugar. Não tinha raízes. Mas isso não quer dizer que não amava. E como amava. Os seres que a cercavam, ele especialmente. Tanto que a última coisa que fez antes de se dirigir ao aeroporto foi deixar uma mensagem.

MEU CARO,
VOCÊ ME DEU TODA A FELICIDADE QUE PODERIA PEDIR. VOCÊ FOI PARA MIM TUDO QUE ALGUÉM PODIA SER. MAS SOU EU A SENHORA DO MEU PRÓPRIO CAMINHO, POR ISSO PRECISO IR. FICA COMIGO A CERTEZA DA SUA BONDADE. FICA CONTIGO TODO MEU AMOR.
A.

Feito isto, tomou seu rumo. A cada passo em direção à porta de embarque, sentia-se entornar quilos de peso pelo chão. Sabia que alguém iria recolher aquilo que deixava pra trás, e com pesar. Mas ela havia decidido que aquele fardo não carregaria. Se tornar um fardo sempre lhe pareceu o pior de todos os fardos.
Despachou a mala com todo o peso que tinha nas costas, sabendo que não iria retirá-la em seu destino. O resto de peso que ainda carregava foi ficando pelo caminho: no avião, no taxi, na agência de turismo – alguns quilos com o dinheiro com que pagou o aluguel do balão - e o último tantinho do lado de fora do cesto, depois de ouvir as últimas instruções sobre como fazer pousar um balão de ar quente. Ouviu com a atenção de quem sabe que não vai precisar daquilo, mas está de corpo e alma presente por que não carrega mais nada além de si.
Acendeu o maçarico, como lhe haviam ensinado. O ar quente subindo e junto seu corpo, com alma e tudo dentro. Sentiu-se subir, flutuar, lembrando-se vagamente de como a ideia da morte a havia atingido com um peso aterrador. Foi esmagada no exato momento em que ouviu “câncer” e se enxergou presa a uma cama de hospital. Mas não. Agora o peso ficara pra trás. A dor agora havia virado poesia, como uma cicatriz que de canto sorri. Sorriu ela também. E com a lucidez dos que sabem o que fazem, assumiu a morte com a leveza de quem voa.



Dearest,
I feel certain that I am going mad again. I feel we can't go through another of those terrible times. And I shan't recover this time. I begin to hear voices, and I can't concentrate. So I am doing what seems the best thing to do. You have given me the greatest possible happiness. You have been in every way all that anyone could be. I don't think two people could have been happier till this terrible disease came. I can't fight any longer. I know that I am spoiling your life, that without me you could work. And you will I know. You see I can't even write this properly. I can't read. What I want to say is I owe all the happiness of my life to you. You have been entirely patient with me and incredibly good. I want to say that — everybody knows it. If anybody could have saved me it would have been you. Everything has gone from me but the certainty of your goodness. I can't go on spoiling your life any longer.
I don't think two people could have been happier than we have been.
V.

sábado, 9 de novembro de 2013

aquelas duas

  Eram duas menininhas. Uma com longos cabelos loiros, lisos com apenas um cacho na ponta. Outra com uma vasta cabeleira castanha e olhos gigantes. As duas com as bochechas mais do que rosadas, beirando o roxo. Poderiam ser as personagens de um quadro impressionista. Duas lindas polaquinhas. Quase duas princesas, não fossem as mangas arregaçadas, o suor espalhado pelo rosto, o furo no joelho da calça de uma e a mancha de molho na camiseta da outra. Não fossem os patinetes jogados e as mãos arranhadas de asfalto. 
  Eram duas meninas pequenas, com perninhas grossas. Perninhas que naquela época ainda não as faziam pensar em academia, dieta ou plástica. Duas menininhas que de tanto arrastar o pé pelo chão, cansaram de deslizar por aí e sentaram em um banco de concreto encardido. De longe eram apenas duas menininhas cansadas, conversando. Mas quem chegasse perto notaria uma certa seriedade. Uma severidade no ar, um olhar de que está discutindo assuntos sérios. Quem, ainda assim, ousasse chegar mais perto, descobriria que naquele momento eram delineadas as mais sérias decisões para o futuro daquelas duas. Pelo menos naquele momento (mal sabia, probrezinhas).
  As duas estavam sentadas frente a frente e, com pesar, admitiam suas frustrações. Simultanea e compartilhadamente olhavam para suas respectivas vidas e percebiam: Viam como suas atuais companheiras não lhes faziam mais sentir a completude da boa amizade. Davam-se conta de como essa coisa toda de terem melhores-amigas-desde-pequenas às haviam deixado presas. Nesse ponto, as vezes desviavam o olhar, com vergonha de estarem abrindo seus pequenos coraçõezinhos tanto assim. Era bonito, mas fazia doer o buraquinho do coração. Dava medo. 
  Mas quando se deram conta, definitivamente, que aquilo tudo era compartilhado, fixaram os olhos uma na outra. Não desviaram o olhar, não mais. Se olharam com a profundidade sincera e macia que só é possível quando mesmo o peso da vida é leveza. Se olharam e tomaram a grande decisão. De comum acordo perceberam que era melhor não comunicar às suas respectivas melhores amigas que elas estavam sendo trocadas. Deus sabe o quanto não tinham nem nunca aprenderiam a ter ganas de machucar ninguém. Decidiram que manteriam as coisas como estavam, ou ao menos fingiriam que tudo estava como antes. Mas sempre que se olhassem, saberiam. Lembrariam daquele momento de suor e alma compartilhada. Lembrariam que, sentadas em uma praça, decidiram estar juntas para sempre. 
  Quando retomaram os patinetes nas mãos, sentiam-se como um copo quase transbordante. Estavam de braços dados, ainda que não estivessem. Caminharam, entrelaçadas, de volta para casa e como que sabiam de tudo. Sabiam dos sofrimentos que os grandes corações que carregavam ainda lhes infligiriam. Sabiam dos amores e desamores que ainda as fariam sentir-se um copo meio vazio. Sabiam que a vida ia lhes mostrar com todas as letras o que é mesmo angústia. Sabiam que o buraco no coração só faria crescer. E pior. Sabiam que um dia ainda iriam se encontrar em um bar, depois de anos, cada uma em um caminho tão distante e inconciliável. Talvez uma médica ou advogada, casada e com filhos e a outra perdida nos caminhos tortuosos da vida, fazendo algum mestrado em antropologia rural.
  Mas isso pouco importava. Não naquele momento. Ali, bastava a certeza tão clara daquele amor leve e sério, definitivo. Bastava sabem que elas eram duas menininhas. E que estavam juntas. 

domingo, 3 de novembro de 2013

o bonito que guardo em mim

  Ok. Admito. Já vivi paixões lancinantes e/ou agradáveis. Já bebi um tiquinho do doce e do amargo. Já tive amores com gosto de açúcar mascavo. O velho papo. Dito isto, posso assumir que já vivi a sensação macia de just-to-love-and-be-loved-in-return. Também já senti a aspereza de amar sem ser amada, quem nunca? E da mesma forma já tive admiradores não correspondidos (malucos ou nem tanto). E, convenhamos, sem falsa modéstia: todo mundo gosta de ouvir declarações, ainda que não esteja interessado no amor que vem de brinde, né?
  Por isso, guardo bem guardado as bonitezas que já ouvi. Ainda que em muitos casos me interessem apenas as palavras. Ainda que, em outros, o tempo as transfigure em feiura. Mas, de todos os homens que já me disseram coisas belas, poderia facilmente escolher  um único para enquadrar as palavras e pendurar na minha parede. Porque elas são as mais bonitas que já me dedicaram. Porque ele me concede o amor mais profundo e altruísta que alguém é capaz de dar. Porque ele o faz insistentemente, semanalmente, e pouco se importa se não lhe dou retorno. Porque ele o faz insistentemente a mais de vinte anos. 
  Sim, vocês terão de me desculpar, mas meu grande amor é um velho barrigudo, de barba branca, com um temperamento dos infernos. Ainda que as vezes eu não tenha paciência de ouvi-lo. Ainda que as vezes tenhamos vontade de nos esganar mutuamente. Mas, quando todo o resto falha, sei muito bem que segue piscando no horizonte o amor que ele me dedica. 
  Sei disso, não nego. Sei que posso maltratá-lo e até gritar com ele, que absurdo, e ele vai seguir me amando. Sei que sempre vou ser eu, palavras dele, que dou as cores para o seu filme. Sei que diante dele sempre serei a menina mais bonita do jardim de infância. 

  É claro, não posso deixar de mencionar, existem teses apontando ser isso uma simples forma de amor próprio. Afinal, segundo outro membro da prole, sou eu a versão dele "de sainha". Com a coluna em S, a cabeça grande, o temperamento dos infernos, a voz de trovão, a fome devastadora e o tom professoral. Daí também Freud explicaria minha eterna implicância com o sujeito.

  Mas, psicanálises a parte, sei bem que nunca serei presenteada com tamanha boniteza por mais ninguém. Que no meio do inferno que constantemente armamos um para o outro, respira um amor profundo. Respira com a mais tranquila certeza de que vai durar pra sempre. Vai me iluminar pra sempre. Porque não é chama, é farol. 

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Sobre a leveza de sustentar-se.

  Estava eu no mais profundo sono sem sonhos, assim pretinho, quando veio me puxar pra superfície a suave melodia do despertador. Não quero, não vou, não posso agora. Vou ficar aqui na pretidão de não sonhar nem pensar. Ainda me doíam no corp'alma as pesadas energias do dia anterior. A incerteza de não saber o que se é, o que se faz naquele lugar cheio de gente. O peso de se manter serena em meio a tanta gente se puxando pra cima e pra baixo. Mas havia sobrevivido e agora estava bem enterradinha na minha cama. Com o peso do corpo bem afundado no macio do colchão. Com o peso da alma bem afundado no macio de não sonhar. 
  Mas, os reflexos de menina curiosa que sempre me lembram que há um mundo lá fora me fizeram abrir o olho. Só assim, de cantinho. E pelo cantinho do olho pude ver uma fresta. Só uma pequena frestinha na minha cortina que deixava passar um nesga de sol. E a tentação de suar meu coração pra fora foi maior: levantei, pus minha calça mais confortável, me batumei de protetor solar e sai para uma caminhada. 
  E foi então que - pondo o pé pra fora - senti que não ia ser tão simples assim. Podia já ter desafundado o peso do macio, mas isso não fazia com que ele deixasse de existir. A cada passo sentia o peso que estava encravado na minha carne fraca. As chaves e o celular no meu bolso pesavam como sacolas cheias de pólvora. 
  Ainda assim prossegui, disposta a botar tudo aquilo pra fora dos meus poros e ficar salgada de suor. Como tantas vezes já fiquei salgada de lágrimas. Mas a primeira gota custou a sair. Pensei em correr, mas as forças da gravidade emocional estavam contra mim. Teria que caminhar, passo por passo, até que meu corpo me desse alforria. E, como tudo na vida, a liberdade não veio de repente. A cada passo sentia que vazava de mim um pouquinho do peso da pólvora, um pouquinho daquele peso alheio. E de grão em grão a galinha esvaziou o papo. 
  Chegando, então, ao meu destino, o meu corpo falou mais alto e me joguei deitada na grama. Esvazie ou que me restava de peso no verde macio e abundante. As formigas me subiram pelos braço, os seres humanos me olharam pelos cantos de olhos. Pouco me importava. Havia transplantado a parte de mim que se importa para aquele belo gramado. Estava derretida e feliz. Assim me quedei pela quantidade de instantes que poderiam compor uma hora, quinze minutos ou uma eternidade. E quando me levantei o fiz com um prazer indigno, de quem carrega o signo da leveza costurado frouxo no peito.
  E o caminho de volta foi flutuado. Até corri, de verdade, bem rápido. Dancei e rodopiei, pra alegria dos passantes bem humorados ou debochados. Cheguei na área de alongamento com a profunda certeza de que era alguém mais leve e macia. Os sacos de pólvora haviam ficado para trás e... Qual não foi minha surpresa quando vi que de fato haviam ficado. Meu bolso estava vazio. Em algum momento havia deixado cair meu molho de chaves. 
  Pensei em entrar em pânico, pensei em ligar pro meu flatmate, pensei em ir para a casa de uma amiga, pensei em dormir na sarjeta. Até que parei de pensar e, de canto, senti. Senti e disse: vou buscar as chaves. Bem no meio daquele gramado verde e macio, aonde as deixei descansando. Aí, normalmente, se iniciaria a mais complexa conversação interna entre minha razão e minha intuição. Mas a intuição, mulher feita que é, de cara já fingiu que nem ouvia e levou a razão pelas mãos. 
  E, bom, maior ainda foi a minha surpresa quando, mais uma vez, atravessei o percurso de meia hora dançando e rindo. Como quem aproveita o lindo momento de ter acabado de perder a chave no meio de um parque. E mais lindo ainda foi o momento de encontrar meu molhinho de chave reluzindo ao sol, exatamente aonde estava eu esparramada anteriormente.
  Já atrasada para alguma coisa, me deitei de novo, abraçada ao molhinho. Senti o sol me queimar e evaporar o últimos resquícios do que não queria dentro de mim. E a volta? Bom, essa foi dançada como são as boas coisas da vida. Com dores nas pernas e queimaduras nas costas, mas com um molhinho de chaves assim, levinho e macio, rodopiando na ponta do dedo. 

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Era uma menina.

Engole seu coração e se ama por dentro 
Caio Fernando Abreu

  Era uma vez uma linda menina. Linda de tudo. No jeito de andar, de dançar. No jeito de sentir. No jeito leve de usar as mãos para tocar os outros, tocar o mundo. Linda no jeitinho de se vestir. Linda quando balançava o cabelo dourado. Linda quando sorria. De todos os tipos de lindeza, só lhe faltava uma: aquela lindeza tranquila e macia de quem sabe que o é. 
  E assim caminhava pelo mundo. Linda que era, não deixava de cativar as atenções de uns mocinhos. Eles a olhavam, gostavam do que viam. Se aproximavam, ela gostava do que via também, então. E assim, já sabemos, começava. E depois terminava, pois como tudo nessa vida os amores tem começo, fim e às vezes meio. E quando acabavam a menina costumava chorar, como é por bem se fazer quando se tem um coração assim, bonito. E quando chorava se sentava diante do espelho e se perguntava o que havia dado errado. Se perguntava e se respondia: deve ser isso aqui, que me sobra. Ou aquilo outro, que me falta. Deve ser a lindeza que anda me faltando.
  Em pouco tempo já estava burlando o mandamento número um da boniteza do mundo: "não cobiçaras as lindezas do próximo". Mal sabia que isso era proibido não porque era pecado, coisa de gente invejosa. Não porque tamanho olho gordo podia deixar o próximo (ou a próxima) com a boca torta. Era proibido porque, cobiçando a lindeza dos outros, você estava amassando a sua e jogando-a bem no fundo, no cantinho de si mesma. 
  E com sua lindeza, enorme que era, amassada bem no fundo do seu ser, a menina continuou a caminhar pelo mundo. E os mocinhos já não olhavam tanto, o que a fazia amassar-se um pouco mais. E quanto mais a amassava, menos os mocinhos se aproximavam. E quanto menos se aproximavam, mais ela amarrotava seu serzinho. E foi ficando, assim, um serzinho, bem pequenininha. E com um buraco doído no meio do peito, que latejava a cada vez que seu coraçãozinho amarrotado batia. 
  Um dia, se enraiveceu. "Pra que me serve esse negócio, que não cessa de bater? Pra nada, só pra doer!". É, foi assim mesmo, parafraseando o falecido mestre sem nem saber, que ela decidiu. Decidiu que não queria mais. Não queria mais doer. Não queria mais sentir. Não queria mais aquele bendito e bonito coração. Sem pestanejar enfiou as mãos bem fundo no meio do peito. Usou as unhas e os dentes com força contra si mesma, até que conseguiu arrancar o malfadado coração. 
  E então, sentou-se no meio fio e ficou olhando o ser vermelho e palpitante - que palpitava, ainda, meio manco, mas já não doía mais. E ficou olhando a criatura bonita e encarnada de sangue. E aí, ninguém sabe bem o que aconteceu. Não se sabe se foi um acesso de canibalismo, uma fome de mundo repentina, um impulso antropofágico ou aquele desespero de socorro-já-não-estou-sentindo-nada que bateu na menininha. Só sei dizer que foi definitivo: ela abriu a maior boca que tinha e engoliu de uma mordida só o bem fadado coração. Engoliu e, nem bem terminara de saboreá-lo, viu que já não estava mais encolhida e amarrotada. Estava como recém saída da lavanderia. Estava linda e inteira, como não podia deixar de ser. Afinal, engolira seu belo coraçãozinho e agora... Ah, agora se amava por dentro, e com muito gosto. 

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

classificação morfossintática dos (des)amores.

  
  Existem amores fulminantes e amores tranquilos. Existem amores inteiros, existem amores divididos. Existem amores pretensamente eternos. Existem amores infinitos enquanto dura a chama. Existem amores antigos, em que a chama evolui para uma outra espécie, sobre a qual não posso discorrer por desconhecimento. 
  Existem amores do tipo oásis, que se compõem de um penoso caminho seguido de um milagroso gole que parece refrescar o corpo e a alma por inteiro. Mas as vezes, gostoso que é, esse gole não mata a sede, só a multiplica. 
  Existem, ainda, amores do tipo bonde. Nestes, já na aproximação você antevê o atropelamento e pensa "ai, essa vai doer". Mas estranhamente não há força que te arranque do meio daquele trilho. Ao contrário, você abre os braços e espera calmamente pelo impacto. E depois, quando você consegue se levantar dos trilhos, esmagado, em geral carrega alguns ossos quebrados, um aperto no coração, uma vontade louca e um poema. Esses eu costumo registrar no meu caderno da vida ao lado de uma anotação dizendo - com a licença do empréstimo ao falecido mestre - "na passagem do furação ...". Belíssimos furações com nome, sobrenome e o poder de deixar um gostinho agridoce na boca. 
  Também existem os amores do tipo balão-de-ar-quente. Nestes geralmente dois indivíduos se propõem a entrar no cesto e se encarar, olho no olho. E no meio disso, algo acontece: a maçarico acende e o ar quente ascende. E juntos os dois indivíduos voam, olhos nos olhos, apenas desviando o olhar vez por outra para notar que linda é a paisagem que se forma em volta. Esses balões em geral pousam devagar e macio. As vezes na saída do cesto ocorrem alguns arranhões. Mas passada a dor, fica a boniteza de olhar pro horizonte e lembrar do seu balão voando e do ser que te acompanhou nessa jornada. 
  Mas também existem amores do tipo balão-de-gás-hélio. Quanto a esses recomendo cuidado: inicialmente nos lembram muito uma viagem em balão de ar quente, mas logo percebemo aonde estamos e vemos que um balão de gás hélio não é capaz de aguentar o peso de duas pessoas. Assim, por mais que a vista seja bela, eles podem estourar quando atingem a atmosfera, levando os dois indivíduos ao chão com uns bons ferimentos. Ou, o pior. Quando você se dá conta, o outro que estava ali contigo já soltou da cordinha a poucos metros do chão e, além de cair, você cai sozinho. 
  Entre os perigosos existem também os amores do tipo pedestal, do tipo casadinho-de-goiabada (que é doce e grudento mas esfarela na primeira intempérie) ou mesmo do tipo cancerígeno. Mas desses tampouco me ocupo pois, felizmente, nunca os experimentei. 
  Mas, dentre todos os tipo de amor, devo dizer que os meus favoritos são os amores de tipo efêmero. Estes podem chegar fulminantes ou mais suaves. O que os caracteriza é uma doçura com gostinho de café, uma sensação de completude, um afeto manso e uma clara noção de começo, meio e fim. Geralmente terminam com um afetuoso "até mais ver" ou um gostoso "boa viagem, se cuide". Deixam um saudade amena, que é como lembrar do sabor de algo gostoso quando sentimos um cheiro. Mas aí percebemos que somente sentir o cheiro já nos encheu de plenitude. Estes, sempre se vão. Fica, apenas, a boniteza de ter sentido. 

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Reclamo porque amo.

  Reclamo porque se não o fizesse não seria professora. Reclamo dos salários, reclamo das condições de trabalho. Reclamo das políticas públicas, do governo do estado, da prefeitura e mais ainda de outras prefeituras que vejo por aí. Reclamo da postura dos pais, que não colocam limites. Reclamo dos adolescente, benditos. Reclamo até das crianças, de quando em vez. Às vezes reclamo dos colegas - ainda que ultimamente tão pouco. Vivo reclamando por melhores condições e um reconhecimento verdadeiro para aqueles que cumprem o malfadado ofício. Porque ser professor é ingrato. É querer mudar o homem, e querer mudar o homem é querer mudar o mundo (pode rir da minha cara agora, não me importo). E querer tudo isso, no mundo/país em que vivemos, é estar destinado a sofrer. Porque ensinar é aprender e aprender é sofrer. Porque não conseguir ensinar é aprender e sofrer ainda mais. E não conseguir faz parte da vida de quem lida com gente. Com gente pequena, então, há que se carregar mentalmente um catálogo de "planos B". Há que se virar em três. Há que se ensinar algo a alguém e ensinar esse alguém a não se tornar um algo - nem fazer isso com o outro. E para isso tudo, só tendo muita energia. Só tendo muita vontade. Só tendo muito amor. 
  E me perdoem se parece "pieguismo pedagógico", mas falo de uma amor maduro. Um amor sem ingenuidades. Um amor carregado do mais forte respeito pela infância e pelo ser humano que ela carrega. Um amor que te faz, mesmo cansado e maltrapilho, soltar os sorrisos e risadas mais sinceros no seu local de trabalho. Um amor que te faz sentir uma felicidade autêntica quando você vê um aluno avançando a partir do andaime que você ajudou a construir. Um amor que te liga as "tuas" crianças, ainda que elas passem de ano e você fique. Um amor que te faz continuar. Mesmo que reclame. Aliás, um amor que te faz reclamar, justamente por saber porque aquilo tudo é tão especial. Justamente porque, mesmo sendo tão difícil, você não largaria o osso por nada. 

  Eu reclamo, porque se não o fizesse não seria professora. Mas amo, porque se não o fizesse não seria quem sou. 

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Belo belo belo, tenho tudo quanto quero.

  Sempre creditei meu amor pela arte a minha delicada mãezinha. De fato, a moça do cabelo de macarrão sempre me levou aos museus e me apresentou as belezas de Monet, Degas, Renoir e outros nomes que não se falam como se lê. Talvez até, de maneira inconsciente, me ensinou aquele diletantismo delicado de quem vai ao museu: o olhar de perto, o olhar de longe, o coçar o queixo e com uma expressão facial demonstrar seu juízo sobre a obra. Sem dúvida a moça do cabelo de macarrão, com seus programas culturais, me alfabetizou nesse mundo. 
  Orgulhosa, as vezes me questionava: como, da fórmula [mesma barriga + mesmo capital cultural], saíram dois seres tão distintos como eu e o ogro do meu irmão? "Pfffff... Isso é arte? Eu também faço um desses, ó!", dizia, diante de obras contemporâneas. E eu com minha coçadinha no queixo mantinha o silêncio e balançava minha cabeça, desesperançada. 
  Enfim, aceitei as discrepâncias do destino. Aceitei ser irmã de um ogro. Segui visitando meus museus, e ele seguiu vendo seus jogos de futebol. Mas a verdade é que somente muito mais tarde eu fui perceber o que realmente era apreciar a beleza da arte. E quando percebi vi que, certamente, a alfabetização com a moça do cabelo de macarrão foi essencial. Só que me dei conta que, mais do que conhecer nomes e escolas, viver a arte era sentir. Suspender o olhar cotidiano. "Deixar que as coisas se aproximem de nós", como já disse o meste. E aí, pasmem, me lembrei do meu querido irmão-ogro. 
  Ogro que é, nunca se sentiu bem em museus ou em quaisquer lugares refinados. Mas tinha a estranha mania de me levar para dar a volta na quadra e ver a lua. Quem sabe andar até o fim da rua para ver onde terminava. Ou então, inventar histórias de animais voadores e mágico, simplesmente olhando nossa gatinha de estimação. 
  Os sinais sempre estiveram ali. Mas somente hoje fui ver - quando cheguei sem querer ao fim de nossa rua - que, na verdade, meu caro irmão-ogro tem lá sua delicadeza. E se a moça de cabelo de macarrão me familiarizou com os museus, ele foi quem me ensinou a fazer da vida uma imensa experiência estética. A cada esquina, a cada lua cheia, encontrar o belo. Por mais ogro que seja, sem nem perceber.