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quinta-feira, 1 de novembro de 2018

O diário da verdadeira ressaca

6 de outubro
Eu acordo em uma ressaca meio nebulosa e demoro pra lembrar que fim de semana é esse. Então lembro de todas as pessoas que em algum momento me disseram que ele não tinha chance. Penso no menino que a um mês atrás me falou que ele não ia nem pro segundo turno. Eu não botei fé no menino, ainda que quisesse muito. Eu espero que você teja certo, disse. No fundo eu estava invejando a ingenuidade que trazia disfarçada de pragmatismo.

Eu sabia que ele tinha chances. Já sentia a forca do discurso dele desde muito antes, talvez porque soubesse como discursos com verdades absolutas são mobilizantes. Algo se aprende falando sobre Holocausto por dois anos todas as semanas. Mas eu ainda não quero acreditar em mim mesma – prefiro pensar que vai dar tudo certo, que não vamos ter um governo autoritário nesse país outra vez.

7 de outubro
Acho difícil acreditar que a oito anos atrás eu estava anulando meu voto. Porque hoje eu voltei a fumar por causa da eleição. Eu pedalo até a cidade vizinha, pra encontrar uns colegas e ensaiar uma apresentação que faremos durante a semana. Eles são ótimos e entendem quando digo que estou um pouco aérea. Aceitam quando fico no celular durante todo o ensaio – eles já sabem que estou apavorada com as eleições no Brasil. O que talvez não entendam é a angustia que sinto em estar distante. Eu não estou apenas ansiosa para descobrir o resultado de algo que está além do meu controle. Sinto um tanto de culpa também: eu devia estar votando, eu devia estar lutando. Eu não estou onde deveria estar.

8 de outubro
Eu acordo com uma ressaca diferente, que nenhum álcool antes me deu. A única sensação similar foi a quatro anos atrás, dois dias depois que presidenta Dilma foi reeleita.

Eu estava fazendo campanha – não queria que Aécio fosse eleito, achava que perderíamos direitos conquistados (porque mal sabia o que vinha pela frente). No dia da vitória eleitoral eu sai na rua pra comemorar e fiquei incomodada: meus amigos gritavam Chupa Tucanada para os moradores de prédios no centro que nos vaiavam. Perto do carro de som, as pessoas cantavam musiquinhas com Aecio Cheirador. Eu só pensava que tinha algo de errado com essa forma de fazer política, mas estava feliz. Tínhamos ganhado em uma vitória apertada. No dia seguinte disse para minha professora Ganhamos. Ela disse que não, que era mais complicado que isso – tem gente que simplesmente sabe. Eu sai da aula e fui pra acupuntura, onde passei 30 minutos ouvindo meu médico e suas pacientes discutindo o absurdo e a ignorância dessa gente que ainda vota no PT. Minha dor de cabeça encravava no meio da testa enquanto eu me encolhia na cadeira e queria muito fugir. No dia seguinte acordei com uma ressaca parecida com a de hoje. Talvez aquela ressaca de quatro anos atrás fosse um sinal dos tempos que estavam chegando.

9 de outubro
Sigo triste, mas menos angustiada – parece que não vai ter jeito mesmo. Deve ser também porque me sinto desacorçoada de ter que lidar com algo assim tão grande à distância. Eu sinto dor por estar distante com frequência, mas acho que isso consegue ser pior do que ver minha sobrinha aprender a andar por fotografias. Eu não sei o que estou fazendo aqui, não numa hora como essa.

14 de outubro
Depois de uma semana de desalento e cigarro, eu amorteço. Sei que não vou conseguir fazer minha parte de onde estou – nem sei qual seria minha parte afinal ou se a fazia quando estava em casa. Sigo acompanhando as notícias, cada uma delas me dói, mas nenhuma me derruba.

15 de outubro
Meu professor fala de um autor que compara a ascensão de Hitler com a ascensão de Trump, eu penso que o caso do Brasil é ainda mais terrivelmente similar. A inquietação acorda em mim. Tenho vontade de traduzir aquele texto, fazer todo mundo que conheço ler. Se vocês querem fazer isso, pelo menos saibam  o que estão fazendo. Mas ao mesmo tempo, eu sei que nada do que eu escreva vai fazer diferença. A última tentativa só serviu pra reforçar as convicções de alguns amigos e receber comentários irônicos de um ex-colega. Eu estava determinada a estabelecer dialogo e tentei começar uma conversa, perguntar sobre os filhos dele, saber se ele queria conversar sobre política. Ele nunca respondeu. Um conhecido começou uma conversa interessante comigo, uma conversa política de verdade, que serviu pra gente entender que podemos concordar mesmo discordando. Mas nesse momento, sinto que isso não basta.

25 de outubro
Eu vejo um tanto de pessoas fazendo campanhas virtuais contra o que vem. Alguns amigos que nunca foram tanto de falar em política, algumas alunas que tive e que nunca soube que se importassem com essas coisas. Eu acho bonito de ver e tento dar minha contribuiçãozinha, mais por desencargo de consciência que outra coisa. Eu sinto que nada do que eu faca nesse momento vai mudar o voto de ninguém.

26 de outubro
A onda de otimismo no meu Instagram me dá um leve ar fresco. Eu volto a pensar na eleição constantemente, mas dessa vez com uma nota de otimismo da vontade. Mas quando meus amigos aqui perguntam o que acho que vai acontecer, o pessimismo da razão fala mais alto. Ainda acho que não vai ter jeito, mesmo tendo feito nessa vida a escolha política de ser uma otimista inveterada.  

27 de outubro
A nesga de otimismo se junta com um sopro de ar fresco que recebo por aqui. Por um dia minha vida aqui é boa o suficiente pra me fazer pensar no Brasil um quase nada. E quando penso, penso com alegria e saudade da boa. Aquela calma que vem antes da tempestade.  

28 de outubro
Eu acordo ansiosa, mas parece que positiva. Não sei muito bem dizer, acho que tô de ressaca. Ressaca alcoólica, não política dessa vez. Decido ir fazer a lavanderia do mês – por algum motivo, olhar minhas roupas girando no meio de toda aquela gente falando espanhol no meu laundromat me relaxa. Troco mensagens com meus amigos no Brasil. Estou otimista, mas não iludido, ele diz. Estou preocupada, ela diz. São tempos sombrios, vejo alguém dizer. Mas quase todos os meus amigos estão postando mensagens otimistas. Eu sinto que ninguém acredita mas todos querem muito acreditar. Otimismo da vontade, é o que resta.

Eventualmente lavar a roupa e fazer faxina terminam tirando minha cabeça das eleições. Deixo a apuração aberta em um canto do meu computador, mas só lembro de olhar quando meu roomate me diz que o Pará votou no PT. É claro que o Pará votou no PT, mas e o resto. Abro a tela da apuração e vejo a tarja ELEITO. O resultado me surpreende positivamente: eu já sabia que o pior ia acontecer, mas em cima da hora quase metade do Brasil entendeu que era o pior.  

Pena que quase metade não é o suficiente. Não estou surpresa, mas frustrada. Não tenho raiva, mas tampouco tenho vontade de dialogar com aquele conhecido educado que votou pra isso acontecer. Não tenho energia para lidar com isso. Quero me fechar na concha, como quis aquele dia depois da acupuntura quando a dor de cabeça milenar da richa política me encravou na testa.

Mas antes de desconectar todos os meus gadgets, abro o Instagram. Ele está repleto de mensagens de esperança, apoio, resistência. Absolutamente inundado de Ninguém Solta a Mão de Ninguém. Sinto vontade de chorar, mas por amor e não por dor. Somos todos amados, armados ou não. Existiremos.

29 de outubro
Eu pedalo até a universidade e penso na história de Instagram que acabei de ver. Um menino que foi votar cantando Vai Dar PT na sua bicicleta e depois vestiu uma camisa do Brasil para entrevistar eleitores do outo lado. Minha primeira reação foi achar aquilo subversivo e gracioso. Mas começo a pedalar e me dá um medo. Fico pensando se ele está bem, se alguém reconheceu ele no seu disfarce, se ele foi agredido. Muito medo, e muita dor por sentir esse medo.

Desço da bicicleta e escrevo para o menino que se infiltrou do outro lado. Não faça isso sozinho, se cuide. Percebo que a parte de mim que mais vai sofrer nos próximos quatro anos é meu instinto maternal – aquele desejo de cuidar de todos e saber que estão bem o tempo todo. Minha vontade é voltar para o Brasil agora. Também porque quero protestar, resistir. Mas principalmente porque quero acompanhar meus amigos até em casa depois do protesto, ter certeza de que chegaram bem. Saber que as migues todas entraram no Uber em segurança depois da balada e saber que chegaram em casa em paz.

Não vou poder fazer isso. Não vou ser capaz de proteger quem amo, não vou estar lá pra lutar pela terra e pelo povo que amo. Me resta estar presente na ausência, se é que isso faz sentido. Estremecer a cada notícia, falsa ou verdadeira, sobre linchamentos, agressões, ataques a tudo aquilo que é desviante.

Chego na universidade com o coração na garganta. Os amigos se importam e perguntam, os colegas querem saber como estou. A única ausência é que as pessoas aqui não sabem abraçar. Numa hora dessa a doçura sem o abraço não tem muita serventia.

Quero prestar atenção na aula. Sei que o que meu professor de teoria política está falando ajuda a entender meu país agora, mas me perco. O problema é também que quando presto atenção e processo as informações, me dá vontade de chorar. Tudo fala sobre o Brasil, sobre o dia de ontem. Sobre esse dia de amanhã que dá tanto medo.


 

domingo, 14 de outubro de 2018

àqueles que cresceram comigo

estar longe do Brasil é uma experiencia carregada de dor e amor pra mim. tem sido assim desde que sai a primeira vez, em setembro do ano passado - ainda que em alguns momentos eu esteja mais consciente disso. mas o peito carregado de saudades constantes é muito diferente do que senti na última semana. nada doi mais do que ver seres humanos com sua existência em risco ao mesmo tempo que vejo pessoas com quem cresci escolhendo colocá-los em risco. em nome da economia ou de se livrar do inimigo politico. 

já faz um tempo, imagino, que eu me tornei o inimigo para estas pessoas. nunca quis que isso acontecesse, mas talvez não exercitei o diálogo suficientemente para evitá-lo. por outro lado, precisava seguir existindo, sendo fiel ao que sou. e meu corpo político pode gerar as mais diversas reações, entre elas intimidar o outro, impedí-lo de dialogar comigo. sinto um misto de culpa, dor, desesperança, medo e cansaço. mais que tudo, sitno desejo fazer algo, vontade de estar no Brasil.

queria poder olhar nos olhos daqueles que visitaram campos de concentração comigo e agora aplaudem ou ignoram discursos facistas. aqueles que foram educados, melhor do que ninguém, sobre os riscos de deixar a violência acontecer, de autorizar a opressão da alteridade. os mesmos que nao exitaram em colocar o rotulo de petralha em mim e meus amigos e nos mandar de volta para Cuba - simplesmente porque defendemos redistribuicao de renda e eles defendem crescer a bolo antes de dividir os pedaços. 

eu acredito na divisão justa antes, durante, e depois do crescimento e gasto meus dias estudando pra te provar que esse é o caminho. mas posso entender, aceitar, dialogar com sua crença num crescimento que precisa vir antes. só não posso, nem nunca vou aceitar que voce coloque isso acima da dignidade humana, dos direitos das mulheres, das comunidades, da populacao pobre. que voce passe por cima de suasticas tatuadas na barriga, garrafadas no pescoco, linchamentos, apologia ao estupro, racismo.  

quando eu trabalhava no museu do holocausto, enchia a boca para falar sobre Heinrich Heine - o sujeito que viu livros sendo queimados na Alemanha e avisou que o pais terminaria queimando pessoas. eu fazia isso semanalmente com todo o orgulho do meu trabalho e da minha comunidade que o permitia acontecer. mas meu orgulho virou vergonha e questionamento profundo da comunidade que me fez quem eu sou. porque agora vejo que pessoas com quem cresci nao entenderam nada. em nome da economia e do fim dos vermelhos, elas sao capazes de deixar queimar os livros.  

e do fundo do meu coracao, nao desejo que ninguem precise se arrepender no futuro. porque quero sempre o melhor para o Brasil e os seres humanos que nele habitam. desejo amor, tranquilidade e um prato cheio de comida para todas as pessoas, independente de suas opcoes eleitorais. para aqueles que cresceram comigo, nao temo pela falta de pratos de comida. talvez pela tranquilidade, de ver a violencia autorizada pelo seu voto. e quanto ao amor, faz tempo que nao sei por onde anda. se encontrarem, me avisem. 

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

sobre ser estrangeira

desde muito antes de sair do Brasil, eu venho pensando na consistência do que é ser estrangeira. pensava que seria uma boa oportunidade de sentir saudade. um espaço em potencial para fortalecer minha identidade. pelo lado judaico, meu pai sempre me fez entender que a alteridade pode ser um elemento fortalecedor da identidade. ficava pensando: será que pra minha brasilidade vai acontecer o mesmo? 

e, bem, não é algo que eu possa dizer agora. não tive muito tempo de pensar no Brasil. não tive tempo, sinceramente, de sentir saudades. em alguns momentos senti que seria bom ter o aconhechego de alguém do meu antigo lugar. em outros, fiquei feliz de estar conectada com quem amo. mas houveram momentos em que eu simplesmente não tinha energia para me comunicar. queria silencio. 

porque a verdade é essa: ser estrangeiro cansa. 

no momento em que pisei nos Estados Unidos eu já podia ter percebido isso. mas, quando o moço da imigração me deu uma dura porque esqueci um documento, eu achei que estava sentindo desamparo. nada mais natural, já que eu acabara de sair de uma colcha de amparo tecida com muito amor.
mas o tempo foi me mostrando que o sentimento cotidiano mais difícil é o cansaço. um que vem da dificuldade de desempenhar até as tarefas mais simples. perceba: no meu primeiro dia na universidade tive que fazer um esforço sobre-humano para comprar um sanduíche. a moça não me entendia e, principalmente, eu não a entendia. eu, do alto do meu currículo de professora-de-inglês terminei comendo algo absolutamente diferente do que imaginei. 

mas é que a língua, parece, é apenas uma das barreiras. você precisa entender a língua cotidiana falada rápido com um sotaque específico. você precisa entender o próprio cotidiano e seus rituais. 

você precisa entender coisas como:
-que tipo de estabelecimento vende adpatadores de tomada?
-que seção do mercado vende aveia?
-qual a palavra usada para saudar pessoas em e-mails informais?
-qual a maneira formal-mas-não-tanto de encerrar um e-mail para seu professor?
-qual o tamanho de um café pequeno? 
-onde é possível encher os pneus da sua bicileta?
-bicicletas circulam nas calçadas ou nas laterais das ruas?

claro, nenhum drama. coisas de uma menina privilegiada e não de um imigrante que precisa sobreviver. mas é uma maquinação cerebral constante. e em outra língua. você chega no fim do dia e não consegue nem falar às vezes .

o que me faz pensar no nível de stress que um imigrante passa. ou um refugiado que estava a mercê em um lugar e continua vulnerável em outro. penso mesmo naquela moça síria que me vendia um café com cardamomo delicioso atrás da Santos Andrade. que me chamava de habiba e me desejou muita sorte e luz quando eu disse que vinha para cá. 

o que eu estou vivendo não chega nem perto do que ela deve ter passado. coisa que eu nunca vou saber ou entender do alto do meu privilégio. mas ela, do alto de um coração grande, entendeu que eu ia enfrentar um desafio, por menor que fosse. achou justo sair de trás do balcão e me abraçar. 

eu só espero que, quando esse cansaço passar, eu também possa ter um pouco dessa energia multiplicadora. de saber olhar para as pessoas com amor. de poder se doar.

por ora, vou focando em entender as pequenezas desse mundo estranho. 





segunda-feira, 6 de outubro de 2014

contos efêmeros I - com um balão só, já dá pra voar?

 Clicou em finalizar compra com a relutância de quem é vivo, mas com a certeza de quem já analisou suas opções incontáveis vezes. Ia fazer esta viagem. Estava decidida. Soube, em verdade, desde o momento em que ouviu a notícia, que tomaria esta atitude. Ainda que tenha perguntado o que mesmo aquele homem havia dito e por alguns segundos não tivesse acreditado. Ainda que não soubesse exatamente o que iria fazer, sabia. Teve a certeza incerta de que faria essa viagem. Teve a certeza que seria a senhora desta jornada.
Senhora de si. Sempre havia sido a senhora de si mesma, por que agora seria diferente? Nunca havia deixado nem ele, aquele que tanto amou, interferir em suas decisões. Estava sempre disposta a estar na companhia dele e de todos aqueles que carregava no coração, mas sempre alcançou o que queria por conta própria. Egoísta? Não. Vivia com a responsabilidade de quem faz porque acredita. Em si, nos outros. Acreditava, acima de tudo, que o mundo tinha tantas possibilidades e que jamais abriria mão de abocanhá-las por estar presa a alguém, a algo, a algum lugar. Não tinha raízes. Mas isso não quer dizer que não amava. E como amava. Os seres que a cercavam, ele especialmente. Tanto que a última coisa que fez antes de se dirigir ao aeroporto foi deixar uma mensagem.

MEU CARO,
VOCÊ ME DEU TODA A FELICIDADE QUE PODERIA PEDIR. VOCÊ FOI PARA MIM TUDO QUE ALGUÉM PODIA SER. MAS SOU EU A SENHORA DO MEU PRÓPRIO CAMINHO, POR ISSO PRECISO IR. FICA COMIGO A CERTEZA DA SUA BONDADE. FICA CONTIGO TODO MEU AMOR.
A.

Feito isto, tomou seu rumo. A cada passo em direção à porta de embarque, sentia-se entornar quilos de peso pelo chão. Sabia que alguém iria recolher aquilo que deixava pra trás, e com pesar. Mas ela havia decidido que aquele fardo não carregaria. Se tornar um fardo sempre lhe pareceu o pior de todos os fardos.
Despachou a mala com todo o peso que tinha nas costas, sabendo que não iria retirá-la em seu destino. O resto de peso que ainda carregava foi ficando pelo caminho: no avião, no taxi, na agência de turismo – alguns quilos com o dinheiro com que pagou o aluguel do balão - e o último tantinho do lado de fora do cesto, depois de ouvir as últimas instruções sobre como fazer pousar um balão de ar quente. Ouviu com a atenção de quem sabe que não vai precisar daquilo, mas está de corpo e alma presente por que não carrega mais nada além de si.
Acendeu o maçarico, como lhe haviam ensinado. O ar quente subindo e junto seu corpo, com alma e tudo dentro. Sentiu-se subir, flutuar, lembrando-se vagamente de como a ideia da morte a havia atingido com um peso aterrador. Foi esmagada no exato momento em que ouviu “câncer” e se enxergou presa a uma cama de hospital. Mas não. Agora o peso ficara pra trás. A dor agora havia virado poesia, como uma cicatriz que de canto sorri. Sorriu ela também. E com a lucidez dos que sabem o que fazem, assumiu a morte com a leveza de quem voa.



Dearest,
I feel certain that I am going mad again. I feel we can't go through another of those terrible times. And I shan't recover this time. I begin to hear voices, and I can't concentrate. So I am doing what seems the best thing to do. You have given me the greatest possible happiness. You have been in every way all that anyone could be. I don't think two people could have been happier till this terrible disease came. I can't fight any longer. I know that I am spoiling your life, that without me you could work. And you will I know. You see I can't even write this properly. I can't read. What I want to say is I owe all the happiness of my life to you. You have been entirely patient with me and incredibly good. I want to say that — everybody knows it. If anybody could have saved me it would have been you. Everything has gone from me but the certainty of your goodness. I can't go on spoiling your life any longer.
I don't think two people could have been happier than we have been.
V.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Sobre a leveza de sustentar-se.

  Estava eu no mais profundo sono sem sonhos, assim pretinho, quando veio me puxar pra superfície a suave melodia do despertador. Não quero, não vou, não posso agora. Vou ficar aqui na pretidão de não sonhar nem pensar. Ainda me doíam no corp'alma as pesadas energias do dia anterior. A incerteza de não saber o que se é, o que se faz naquele lugar cheio de gente. O peso de se manter serena em meio a tanta gente se puxando pra cima e pra baixo. Mas havia sobrevivido e agora estava bem enterradinha na minha cama. Com o peso do corpo bem afundado no macio do colchão. Com o peso da alma bem afundado no macio de não sonhar. 
  Mas, os reflexos de menina curiosa que sempre me lembram que há um mundo lá fora me fizeram abrir o olho. Só assim, de cantinho. E pelo cantinho do olho pude ver uma fresta. Só uma pequena frestinha na minha cortina que deixava passar um nesga de sol. E a tentação de suar meu coração pra fora foi maior: levantei, pus minha calça mais confortável, me batumei de protetor solar e sai para uma caminhada. 
  E foi então que - pondo o pé pra fora - senti que não ia ser tão simples assim. Podia já ter desafundado o peso do macio, mas isso não fazia com que ele deixasse de existir. A cada passo sentia o peso que estava encravado na minha carne fraca. As chaves e o celular no meu bolso pesavam como sacolas cheias de pólvora. 
  Ainda assim prossegui, disposta a botar tudo aquilo pra fora dos meus poros e ficar salgada de suor. Como tantas vezes já fiquei salgada de lágrimas. Mas a primeira gota custou a sair. Pensei em correr, mas as forças da gravidade emocional estavam contra mim. Teria que caminhar, passo por passo, até que meu corpo me desse alforria. E, como tudo na vida, a liberdade não veio de repente. A cada passo sentia que vazava de mim um pouquinho do peso da pólvora, um pouquinho daquele peso alheio. E de grão em grão a galinha esvaziou o papo. 
  Chegando, então, ao meu destino, o meu corpo falou mais alto e me joguei deitada na grama. Esvazie ou que me restava de peso no verde macio e abundante. As formigas me subiram pelos braço, os seres humanos me olharam pelos cantos de olhos. Pouco me importava. Havia transplantado a parte de mim que se importa para aquele belo gramado. Estava derretida e feliz. Assim me quedei pela quantidade de instantes que poderiam compor uma hora, quinze minutos ou uma eternidade. E quando me levantei o fiz com um prazer indigno, de quem carrega o signo da leveza costurado frouxo no peito.
  E o caminho de volta foi flutuado. Até corri, de verdade, bem rápido. Dancei e rodopiei, pra alegria dos passantes bem humorados ou debochados. Cheguei na área de alongamento com a profunda certeza de que era alguém mais leve e macia. Os sacos de pólvora haviam ficado para trás e... Qual não foi minha surpresa quando vi que de fato haviam ficado. Meu bolso estava vazio. Em algum momento havia deixado cair meu molho de chaves. 
  Pensei em entrar em pânico, pensei em ligar pro meu flatmate, pensei em ir para a casa de uma amiga, pensei em dormir na sarjeta. Até que parei de pensar e, de canto, senti. Senti e disse: vou buscar as chaves. Bem no meio daquele gramado verde e macio, aonde as deixei descansando. Aí, normalmente, se iniciaria a mais complexa conversação interna entre minha razão e minha intuição. Mas a intuição, mulher feita que é, de cara já fingiu que nem ouvia e levou a razão pelas mãos. 
  E, bom, maior ainda foi a minha surpresa quando, mais uma vez, atravessei o percurso de meia hora dançando e rindo. Como quem aproveita o lindo momento de ter acabado de perder a chave no meio de um parque. E mais lindo ainda foi o momento de encontrar meu molhinho de chave reluzindo ao sol, exatamente aonde estava eu esparramada anteriormente.
  Já atrasada para alguma coisa, me deitei de novo, abraçada ao molhinho. Senti o sol me queimar e evaporar o últimos resquícios do que não queria dentro de mim. E a volta? Bom, essa foi dançada como são as boas coisas da vida. Com dores nas pernas e queimaduras nas costas, mas com um molhinho de chaves assim, levinho e macio, rodopiando na ponta do dedo. 

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Era uma menina.

Engole seu coração e se ama por dentro 
Caio Fernando Abreu

  Era uma vez uma linda menina. Linda de tudo. No jeito de andar, de dançar. No jeito de sentir. No jeito leve de usar as mãos para tocar os outros, tocar o mundo. Linda no jeitinho de se vestir. Linda quando balançava o cabelo dourado. Linda quando sorria. De todos os tipos de lindeza, só lhe faltava uma: aquela lindeza tranquila e macia de quem sabe que o é. 
  E assim caminhava pelo mundo. Linda que era, não deixava de cativar as atenções de uns mocinhos. Eles a olhavam, gostavam do que viam. Se aproximavam, ela gostava do que via também, então. E assim, já sabemos, começava. E depois terminava, pois como tudo nessa vida os amores tem começo, fim e às vezes meio. E quando acabavam a menina costumava chorar, como é por bem se fazer quando se tem um coração assim, bonito. E quando chorava se sentava diante do espelho e se perguntava o que havia dado errado. Se perguntava e se respondia: deve ser isso aqui, que me sobra. Ou aquilo outro, que me falta. Deve ser a lindeza que anda me faltando.
  Em pouco tempo já estava burlando o mandamento número um da boniteza do mundo: "não cobiçaras as lindezas do próximo". Mal sabia que isso era proibido não porque era pecado, coisa de gente invejosa. Não porque tamanho olho gordo podia deixar o próximo (ou a próxima) com a boca torta. Era proibido porque, cobiçando a lindeza dos outros, você estava amassando a sua e jogando-a bem no fundo, no cantinho de si mesma. 
  E com sua lindeza, enorme que era, amassada bem no fundo do seu ser, a menina continuou a caminhar pelo mundo. E os mocinhos já não olhavam tanto, o que a fazia amassar-se um pouco mais. E quanto mais a amassava, menos os mocinhos se aproximavam. E quanto menos se aproximavam, mais ela amarrotava seu serzinho. E foi ficando, assim, um serzinho, bem pequenininha. E com um buraco doído no meio do peito, que latejava a cada vez que seu coraçãozinho amarrotado batia. 
  Um dia, se enraiveceu. "Pra que me serve esse negócio, que não cessa de bater? Pra nada, só pra doer!". É, foi assim mesmo, parafraseando o falecido mestre sem nem saber, que ela decidiu. Decidiu que não queria mais. Não queria mais doer. Não queria mais sentir. Não queria mais aquele bendito e bonito coração. Sem pestanejar enfiou as mãos bem fundo no meio do peito. Usou as unhas e os dentes com força contra si mesma, até que conseguiu arrancar o malfadado coração. 
  E então, sentou-se no meio fio e ficou olhando o ser vermelho e palpitante - que palpitava, ainda, meio manco, mas já não doía mais. E ficou olhando a criatura bonita e encarnada de sangue. E aí, ninguém sabe bem o que aconteceu. Não se sabe se foi um acesso de canibalismo, uma fome de mundo repentina, um impulso antropofágico ou aquele desespero de socorro-já-não-estou-sentindo-nada que bateu na menininha. Só sei dizer que foi definitivo: ela abriu a maior boca que tinha e engoliu de uma mordida só o bem fadado coração. Engoliu e, nem bem terminara de saboreá-lo, viu que já não estava mais encolhida e amarrotada. Estava como recém saída da lavanderia. Estava linda e inteira, como não podia deixar de ser. Afinal, engolira seu belo coraçãozinho e agora... Ah, agora se amava por dentro, e com muito gosto. 

domingo, 6 de outubro de 2013

O que há de bom.

  Bom é deixar as rodas em casa e sair para andar sobre os próprios pés. Bom é flutuar sozinho.  Bom é, contra o vento ou a favor, poder fechar os olhos. Bom é o encontro. Boa é a surpresa de descobrir o outro. Bom é conhecer a fundo, bom é conhecer de passagem. Bom é tocar. Bom é ser tocado. Bom é se jogar com tudo, num corpo a corpo com a materialidade do mundo. Boa é a materialidade do outro, sentida de leve ou de pesado. Bom é, do alto de nossa completude, encontrar no outro aquilo que não temos.

  Boa é a troca. Bom é poder olhar. Bom é sentir seus olhos como duas câmeras para quem o mundo está posando. Bom é olhar pra tudo, bom é olhar pro nada. Bom é olhar pra dentro, bom é olhar pra fora. Bom é o olhar de uma criança. Bom é o olhar de quem já viveu muito e te diz “essa juventude”. Boa é a intimidade – a maior de todas? - de olhar nos olhos.

  Bom é estar aqui, naquele lugar que é exatamente-aonde-eu-gostaria-de-estar-aonde-quer-que-esteja. Bom é estar vivendo. Não apenas vivo, vivendo. Bom é colocar seu coração nisso tudo. Bom é conectar sua energia vital. Bom é se esticar, ficar na ponta dos pés. Para não machucar. Para enxergar do outro lado do muro.

  Bom é estar com os dois pés no chão. Bom é rodopiar. Bom é se sentir seguro. Bom é sentir vertigem. Bom é se ver em queda livre, sem medo. Bom é entrar nessa montanha russa e soltar as mãos. Bom é dar as mãos. Para o outro, para a vida, para si mesmo.

  Bom é se dar a liberdade de enxergar o que há de bom.


  Bom, mesmo, é ter um lindo dia de sol pra se agarrar com unhas e dentes.